sábado, 14 de fevereiro de 2015

É carnaval, alors on danse!?









                O carnaval chegou, vamos dançar! On danse!

                O Carnaval tem sua simbologia fincada na alegria, no sorriso, na dança. O carnaval é felicidade, é  momento de celebrar!
                Nesse período milhões de pessoas de norte a sul do país saem às ruas para beber, beijar, rir, transar, enfim, se divertir. Os pudores são esquecidos, a liberdade é cantada aos quatro ventos sobre trios, palcos, bares e praças. As cidades se transformam com as aglomerações de pessoas de identidade política e sociais diversas, todas elas muito felizes.
              O Brasil nestes dias de festa se torna um território feliz, na TV nossa gente é retratada alegre, serena, festeira e hospitaleira. Nossa imagem de povo receptivo ao turista é vendida aos quatro ventos do mundo através do carnaval. Mas até que ponto essa alegria é verdadeira? Até que limite essa imagem dx brasileirx hospitaleirx chega a ser realidade? Até que ponto o carnaval é mesmo esse carnaval que mostra a televisão? Por que você então dança?
                Primeiramente, você carx leitorx, vive em uma sociedade capitalista, ou seja, uma sociedade baseada na produção de bens de consumo por meio do livre comércio de mercadorias. Portanto em nossa sociedade, qualquer coisa pode ser rentabilizada, visando sempre lucros, inclusive a felicidade. Mercadorias surgem a partir da necessidade (ou não). O mais incrível nesse fato social complexo é que qualquer emoção do ser humano pode ser comercializável, pode se tornar uma mercadoria: nossas alegrias, ideologias, nosso ódio, fome, sede e até nossa cultura. E por que estou falando nisso, quando na verdade convidei você pour danse (para dançar)?
                Sim eu convidei você pour danse pois é isso que normalmente fazemos no carnaval, seguimos com a dança. Obedecemos as batidas, aos sons das cordas da percussão e vamos caminhando, pulando felizes, como se não houvesse outra coisa no mundo (naquele momento) que te deixasse mais feliz que dançar segundo o ritmo da música. Por isso dançamos. Por isso alors on danse (então, vamos dançar).
                No meio dessa dança, de toda essa alegria e de toda essa cerveja, pergunto: você já pensou em quem é que faz o carnaval? Favor, não me responda que são os foliões, pois quando estes chegam nas avenidas, pistas, camarotes e outros espaços da vida carnavalesca tudo já está planejado, disposto à recebê-los. Logo, eles não fazem o carnaval. Também não me responda que são as empresas de entretenimento, que constroem seus camarotes, que investem milhões em seus trios, palcos e festas, esperando receber o dobro de volta. E por fim, não me diga que são as prefeituras, pois os prefeitos estão preocupados com o marketing para suas próximas campanhas eleitorais e isso envolve a garantia da alegria das empresas e das pessoas presentes na festa que tem sua vigência ligada ao calendário cristão que seguimos.
                Mas e então? Refletiu sobre quem é que faz o carnaval? Quem comanda a máquina da felicidade?
                Eu tenho uma hipótese: nossa “alegria” esta sendo comercializada. Se tornou produto. Compramos a ideia de que no carnaval devemos comemorar alguma coisa, seja ela qual for. Você já se perguntou por que existe o carnaval? Se conhece a história do carnaval, por que ele mudou tanto de forma e objetivo?
                No carnaval que eu compro a ideia de ser feliz, pelo menos por cinco, quatro ou três dias. É no carnaval que eu esqueço (ou celebro) as mazelas e as tragédias sociais. Ali nós compramos a felicidade por alguns dias.
                Se queremos comprar felicidade, logo, ele o neoliberalismo, que tanto nos trás problemas nos dias atuais, vai nos dar enquanto consumidores pagantes, a maior festa do planeta. E para montar essa grande festa, precisamos que alguém, ou alguns façam isso como marionetes seguindo as exigências do mercado, daí o papel do estado com uma montanha de investimentos (fantasiado de investimento em cultura...) e quando nos damos conta de tudo armado... Alors on danse!
                Já que estamos tocando neste assunto, convido-xs a ouvir, ler e refletir com uma música de um artista chamado Stromae, o título da música, assim como o deste post é um convite “Alors On Danse” em francês, que no português quer dizer “Então, vamos dançar!”


Letra da Música Original
Letra da Música Traduzida
Alors On Danse
Alors on danse
Alors on danse
Alors on danse

Qui dit étude dit travail
Qui dit taf te dit les thunes
Qui dit argent dit dépenses
Qui dit crédit dit créance

Qui dit dette te dit huissier
Oui dit assis dans la merde
Qui dit Amour dit les gosses
Dit toujours et dit divorce

Qui dit proches te dis deuils
Car les problèmes ne viennent pas seul
Qui dit crise te dis monde dit famine dit tiers-monde
Qui dit fatigue dit réveille encore sourd de la veille
Alors on sort pour oublier tous les problèmes

Alors on danse?
Alors on danse?
Alors on danse?
Alors on danse?
Alors on danse?
Alors on danse?
Alors on danse?
Alors on danse?
Alors on danse?

Et la tu t'dis que c'est fini car pire que ça ce serait la mort
Qu'en tu crois enfin que tu t'en sors
Quand y en a plus et ben y en a encore!
Ecstasy dis problème les problèmes ou bien la musique
Ça t'prends les trips ça te prends la tête
Et puis tu prie pour que ça s'arrête

Mais c'est ton corps c'est pas le ciel
Alors tu t'bouche plus les oreilles
Et là tu cries encore plus fort et ca persiste

Alors on chante
Lalalalalala, lalalalalala
Alors on chante
Lalalalalala, lalalalalala
Alors on chante

Alors on chante
Lalalalalala, lalalalalala
Alors on chante
Lalalalalala, lalalalalala
Alors on chante

Et puis seulement quand c'est fini, alors on danse
Alors on danse
Alors on danse
Alors on danse
Alors on danse
Alors on danse
Alors on danse
Alors on danse

Et ben y en a encore
Et ben y en a encore
Et ben y en a encore
Et ben y en a encore
Et ben y en a encore
Então vamos dançar
Então vamos dançar
Então vamos dançar
Então vamos dançar

Quem diz estudo, diz trabalho
Quem diz moeda, diz nota
Quem diz dinheiro, diz despesa
Quem diz crédito, diz débito

Quem diz dívida, diz fiscal
Se diz sentado na merda
Quem diz amor, diz crianças
Diz sempre e diz divórcio

Quem diz aproximação, diz angústia
Pois os problemas não vêm sozinhos
Quem diz crise, diz mundo, diz fome, diz terceiro mundo
Quem diz fatiga, diz acorda ainda surdo da véspera
Então vamos sair para esquecer dos problemas

Então vamos dançar?
Então vamos dançar?
Então vamos dançar?
Então vamos dançar?
Então vamos dançar?
Então vamos dançar?
Então vamos dançar?
Então vamos dançar?
Então vamos dançar?

E aí você fala pra que acabou, pois pior que isso, só a morte
E você acredita que sairá
Dessa quando ainda há mais, e ainda há!
Ecstasy é problema, os problemas, ou mais ainda, a música
Você embarca numa viagem, te prende a cabeça
E depois você reza para que tudo pare

Mas é o seu corpo, não é o céu
Nem sua boca e tampouco as suas orelhas
E você grita mais alto e ainda persiste

Então, vamos cantar
Lalalalalala, lalalalalala
Então, vamos cantar
Lalalalalala, lalalalalala
Então, vamos cantar

Então, vamos cantar
Lalalalalala, lalalalalala
Então, vamos cantar
Lalalalalala, lalalalalala
Então, vamos cantar

E somente quando acabar, aí sim vamos dançar
Então vamos dançar
Então vamos dançar
Então vamos dançar
Então vamos dançar
Então vamos dançar
Então vamos dançar
Então vamos dançar

Ainda há vida
Ainda há vida
Ainda há vida
Ainda há vida
Ainda há vida

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Olhares sobre a Festa de Yemanjá

A festa de Yemanjá, que acontece no Bairro do Rio Vermelho aqui em Salvador, tem sido ao longo de anos um movimento recíproco e contínuo de influência dos diversos níveis culturais. Uma teia de (re)apropriações e (re)construções que encanta.

Quem vai à Festa não a assiste apenas, participa dela provocando uma convergência entre círculos culturais sob o sol da Bahia.










Circularidade Cultural.

Quem representa o papel da cultura dominante? 

Quem representa a Cultura popular?

Muitas vezes, não é tão simples a resposta. 

















 Outras vezes ela é mais simples...














 Construção cultural religiosa brasileira baseada numa história africana de longuíssima duração, eivada pelo capitalismo atual transformando-se numa dinâmica cultural muito complexa.
É isso também a Festa de Yemanjá.















Dia 02 de Fevereiro na Bahia é dia de Yemanjá! É dia de poesia!






Imagens: Equipe do Blog Oxe

sábado, 31 de janeiro de 2015

Podcast "Se bote aí, vá!" com Teresinha Fróes

Estamos de volta com mais um Podcast "Se bote aí, vá!"

E dessa vez tivemos o enorme prazer de conversar com Terezinha Fróes Burnham. Uma MULHER que além de ser uma profissional incrível é também uma pessoa muito sensível.

Ouça! Comente! #SeBoteAíVá

Clique aqui para ver o Currículo Lattes de Terezinha





domingo, 25 de janeiro de 2015

Her: você é completo?

 De cara nós podemos dizer que Her é um filme com discurso diferenciado, porque ele traz como personagem principal um homem, heterosexual, com características emocionais que históricamente nossa sociedade atribui às mulheres. Além deste personagem ter como atividade econômica ser escritor de cartas de amor, podemos citar duas cenas no filme que demonstram sua sensíbilidade efeminada para os nossos padrões. Na primeira cena ele utiliza um serviço telefônico que interliga pessoas com intenção de sexo, do outro lado a voz de uma mulher começa a excitá-lo e o clima esquenta até ela pedir para que ele a sufoque, parece que ela gosta de um sexo a lá 50 tons de cinza, todavia isso faz ele perder totalmente o prazer. Na segunda cena sexual do filme, em que ele parece ficar muito satisfeito com o resultado, as palavras que ele usa são doces, diríamos poeticas.

O filme, que se passa num futuro não especificado, mostra a rotina de um homem que separado de sua esposa se apaixona por um Sistema Operacional. O desenrolar do drama de Theodore faz o espectador refletir sobre os estereótipos de gênero, as relações sociais no mundo contemporâneo, o papel que a tecnologia tem desempenhado e pode vir a desempenhar na vida das pessoas, mas principalmente o filme trata do autoconhecimento.  
Quem nunca passou por uma crise existencial? Perguntas tais como: quem sou eu? O me faz feliz? O que faz minha vida ter sentido? Onde eu me enquadro na sociedade? Anda e vira estão passando pela nossa cabeça, geralmente provocadas por algum acontecimento que desequilibra nossas certezas, nossa rotina ou nossas emoções. É um desses momento que Theodore Twombly, personagem principal do filme Her está vivendo.

Como não podia deixar de ser num filme que se passa no futuro, a tecnologia está presente, mas neste caso ela aparece como coadjuvante, para fazer o espectador pensar no protagonismo dos seres humanos sobre suas prórpias vidas. Enquanto Theodore anda pela cidade a cena mais frequente é de pessoas andando sozinhas, gesticulando e conversando com seus aparelhos eletronicos. É muito provável que a maioria dessas pessoas estejam se comunicando com Sistemas Operacionais, mas ainda que haja um ser humano do outro lado é notório a alteração das relações entre as pessoas provocando afastamento entre elas, porém não a necessidade que eles tem uns dos outros, necessidade que vai sendo, de alguma forma, suprida pelas máquinas com inteligência emocional adaptada às necessidades individuais.
Se de modo geral o que aproxima as pessoas são as afinidades, como não se apaixonar por algo, que mesmo sem um corpo físico, é exatamente como você espera e deseja e ainda resolve parte dos seus problemas do dia-a-dia. É exatamente o que acontece com nosso artista, ainda não muito recuperado de uma separação, a qual terminou por cobranças relacionadas às incompatibilidades de personalidade, ele encontra em Samantha (seu Sistema Operacional inteligente) um complemento do seu próprio eu. Mas a confusão de Samantha na construção de sua personalidade faz Theodore ir se reconstruindo


Este filme é uma grande provocação. Faz-nos perguntar-mos a nível psicológico: o que somos? E a nível sociológico: no que estamos nos tronando. Os elementos são todos instigantes. Roupas retrógradas, Inversão nas relações entre os gêneros e a permanência pela eterna busca da felicidade fora de si mesmo. Este ultimo é o que o filme parece querer discutir mais profundamente. Nossa eterna necessidade do outro para ser completamente feliz e paralelamente a isso, nossa necessidade de moldar a personalidade do outro aos nossos interesses, dificultando a relação e, portanto a felicidade. 

Cê viu o que eu vi? Se bote ai!



segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Reblogagem - Não existe bicha pobre?


   Autor Fabricio Longo
   Em 5 de novembro de 2014

Farme de Amoedo, Ipanema. O sol se encaminha lentamente para o morro Dois Irmãos, enquanto as bandeiras arco-íris colorem a areia. Nesse pequeno paraíso cor de rosa, corpos sarados brilham em minúsculas sungas importadas enquanto a troca de olhares só é superada pelas fofocas sobre o último fim de semana. Tudo na mais perfeita ordem, quando aquele gay chato, metido a politizado, comenta alguma coisa sobre a criação de um abrigo para moradores de rua homossexuais

“Ah, não precisa disso não! É mais segregação, preconceito… Será que nunca seremos tratados como iguais?” – pergunta, indignado, o coleguinha discreto enquanto aplica no rosto uma porção generosa de sunscreen UV Essentiel by Chanel.

Não…  Não seremos.

É fácil indignar-se com a “segregação” promovida por políticas públicas e por discursos ativistas quando não há a sensação de que somos contemplados por eles. É fácil questionar a relevância da parada gay, fazer meia dúzia de comentários chocados no último relato de homofobia, para depois voltar a escolher a pomada do topete ou o boy que está a 2 km de distância. Difícil é estar na rua.

É na rua que estão as travestis, os michês e as bichinhas pegadeiras. Eles é que são as maiores vítimas de violência anti-LGBT, mas são também o “lado oculto do arco-íris”. A parte  excluída de um movimento que – teoricamente – luta por igualdade, respeito à diversidade e inclusão. Mas também, ninguém mandou esse povo ficar se expondo, não é mesmo?

É óbvio que qualquer medida de proteção às pessoas LGBT – especialmente em situação de fragilidade, como é o caso dos moradores de rua – é necessária. Ser “gay” fora do gueto não é fácil e parece que a comunidade não reconhece isso. Não é por acaso que quase todo relato de agressão feito por usuários do Facebook tem o clichê de “você nunca pensa que vai acontecer contigo”. Não pensamos mesmo. Estamos seguros em nossas praias, em nossas boates, atrás de nossos computadores, de nossas graduações, de nossos empregos fixos, de nossa bagagem cultural e até de nossa última viagem à Argentina.

Fala-se em “orgulho e preconceito” como experiências abstratas ou o nome de um livro, nas areias de Ipanema ou entre os goles de um café gourmet, antes da sessão daquele filme europeu super incrível que só o festival de cinema foi capaz de trazer. De repente, esses assuntos até servem para conquistar aquele cara mais “cabeça”, que é do tipo “pra namorar”, vai que…

São coisas distantes.

Será que um mendigo homossexual se reconhece como tal? Essa identidade – gay – é possível fora de um modelo de consumo? É óbvio que existem moradores de rua com atividades homossexuais, mas isso não significa necessariamente que eles se reconheçam dessa forma ou que se relacionem exclusivamente assim. Se uma pessoa precisa se preocupar em conseguir um teto ou algum papelão para passar a noite, rezando para não ser queimado vivo, tem cabeça para pensar em algum tipo de “identidade sexual”? E em caso afirmativo, não estaria exposta a outros níveis de exclusão e violência – inclusive sexual – precisamente por isso?

O movimento LGBT tem coisas maravilhosas e o ORGULHO certamente é uma delas. Precisamos nos orgulhar dos avanços conquistados e das muitas lágrimas choradas, mas também tomar a coragem para investigar e para reconhecer nossos problemas. Não há como alimentar a ilusão de inclusão quando só temos respeito se formos “branquinhos”, “limpinhos” e principalmente, “riquinhos”.

Uma comunidade que se deixa definir por status e que se perde com o escapismo promovido por “divas” importadas, que torce o nariz para certos “tipos de gay”, e que chega ao extremo de criar termos de exclusão como “pão com ovo” e “poc-poc”, não pode reclamar de ser tratada como diferente.

Somos diferentes e seguimos alimentando essas diferenças – inclusive entre nós – para definir quais pessoas e quais comportamentos serão considerados dignos e indignos. Excluímos e oprimimos tanto quanto nossos agressores, talvez ao buscar construir uma imagem ideal – e “limpa” – de um segmento que nem se entende e nem se respeita, como se o respeito fosse privilégio de quem merece. E pior ainda, de quem pode pagar!

Será que a sociedade trataria da mesma forma a bicha mendiga que pede abrigo à prefeitura e o boyzinho fashion recém-chegado de Ibiza? É pouco provável. Talvez seja por isso que seguimos em nossas gayolas de cristal, assistindo de camarote enquanto outros LGBT – iguais a nós, não só pela sexualidade, mas por serem humanos – seguem sumindo nas grandes cidades. Uns ainda terminam em algum abrigo, quando conseguem escapar da vala, mas quem se importa? Semana que vem chega o novo iPhone.

Quanta pobreza!

Texto retirado do site Os Entendidos

domingo, 11 de janeiro de 2015

Ó, o fuzuê com os corpos LGBTs



Continuando nosso momento de novidades, apresentamos nosso I "Ó, o Fuzuê" que tem o intuito de debater de forma bem descontraida com convidados temas relacionados a padronização e normatização da sociedade.

Vamos sambar, frescar e divar pois é tudo permitido. Aperta o Play e vem com a gente!



Deixe seu comentário com opiniões e sugestões!

domingo, 4 de janeiro de 2015

Se Bote aí, vá!

Abrindo os trabalhos  de 2015 chegamos com uma super novidade para vocês!

Temos a honra de dar inicio ao nosso Podcast "Se bote aí, vá!", nosso primeiro convidado é o professor e diretor do Departamento de Educação do Campus I da Universidade do Estado da Bahia, Valdélio Silva.

#ApertaOPlay e não deixe de comentar!


domingo, 16 de novembro de 2014

Lucy: Um discurso padrão



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Nasce hoje nossa primeira coluna, “Oxe! Cê Viu?” ela irá abordar temas referentes ao padrão e normatização nos meios audiovisuais.


Ficamos nos perguntando se já não era tarde demais para falar sobre Lucy, afinal não tem mais graça que o filme estreou. Também nos perguntamos se ia pegar mal ficar aqui fazendo propaganda do filme, chegamos a conclusão de que o ditado popular está certo quando afirma nunca ser tarde demais e acreditamos que vale o merchandising já que o filme é altamente instigador da reflexão.


Fizemos tantas viagens ao assistir ao filme e quanto mais ouvimos outras pessoas comentarem sobre ele percebemos que são viagens pouco exploradas. Taí a questão principal na decisão de conversar sobre ele.


Em linhas gerais, iremos fazer uma “viagem” pelo filme tentando analisar nos discursos construídos, em algumas cenas, o que consideramos perigoso por ocultar nas entrelinhas o objetivo de ratificar ou disseminar as normas e padrões existentes aí na sociedade.


Mas não sejamos chatos e nos deixemos devanear. Afinal cinema é entretenimento e lugar de fantasiar sobre o que poderia ser se assim fosse. Mas não sejamos ingênuos ao pensar que a industria cinematográfica não se aproveita das fantasias que tanto nos diverte para imprimir em nós suas ideologias.  Assim sendo, vamos às críticas:


LUCY COMO PADRÃO

Não podemos deixar de mencionar a atriz. Uma coisa unanime em todos os comentários que ouvimos foi o elogio a Scarlett Johansson: linda e talentosíssima! Bem, isso é inquestionável. Mas por que será que foi ela a escolhida para este papel de Lucy? Sabemos que os corpos tem papéis sociais definidos, divididos por territórios bem demarcados de acordo com várias características, inclusive fenotípicas.


Seria uma quebra de paradigma (enorme) se nas grandes salas de cinema assistíssemos a um filme onde uma mulher, no papel principal, é comparada a um deus, com capacidade cerebral insuperável por outro humano aparecesse num corpo não branco.




É muito sugestiva a cena do filme que nos faz lembrar o quadro de Michelangelo “Criação de Adão” no qual Deus fornece a Adão a centelha de vida. O encontro com a australopithecus Lucy, até agora considerado o mais antigo fóssil, de nossa “genealogia” - diga-se de passagem encontrado na Etiopia (continente africano) -, faz-nos pensar na evolução da espécie humana tendo a Lucy Ocidental (Scarlett Johansson) como o ser mais evoluído de todos, controlando várias coisas, como o tempo, as massas, os elementos químicos e físicos.
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Entendemos que a escolha da atriz loura, está dentro dos padrões historicamente estabelecidos como necessários à manutenção do pensamento do corpo branco, europeu como molde para os seres superiores. Então a cor da pele, olhos, cabelos e o fato de ela ser norte-americana é na verdade um reforço a permanência do mais do mesmo no cinema. Por que não uma mulher negra como Lucy? Será que este filme não deixa explicito o que pensam os “afrofóbicos”: ok! Surgimos na África, mas evoluímos tá?


DISCURSO DO “SER” MAIS IMPORTANTE

A discussão fundamental do filme é o lugar do ser humano enquanto criatura mais importante e poderosa no planeta Terra.


Abaixo transcrevemos as falas da personagem Lucy sobre este assunto:


Os seres humanos se acham únicos e sua própria existência depende desta unicidade. Um é uma unidade de medida, mas está errado. Todo o sistema social está construído em conceitos similares à certeza de que 1 + 1 = 2. Mas 1 + 1 nunca é igual a 2. De fato, não há números, ou letras. Codificamos nossa existência pra fazê-la do tamanho humano para torná-la compreensível. Criamos escalas para esquecer das escalas sem limites.


Com esta fala Lucy afirma que os seres humanos, que nem conhecem todos os mistérios do universo, supervalorizam sua importância existencial. Constroem formas/sistemas de responder às perguntas fundamentais: quem somos? Onde estamos? E para isso manipulam dados naturais de maneira que sua existência no universo ganhe um prestígio inegável.


Embora o filme traga na fala da personagem a reflexão sobre o papel do ser humano como figura supervalorizada, ao admitir como aceita a teoria de que usamos apenas 10% da nossa capacidade cerebral, o mesmo reafirma o inegável prestígio do que é ser humano. Afinal, somente o humano é apto a atingir um nível capaz de compreender todos os mistérios da vida e isso o coloca - sem questionamentos - como o ser mais importante do planeta.


A RAZÃO ESTÁ NA ACADEMIA?
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Acompanhamos os passos de Lucy para compreender exatamente os cénarios dos quais ela faz uso e tentamos traçar algumas análises para compreender qual discurso normatizador o roteiro lança.


A droga que provoca a alteração cerebral em Lucy é fabricada em Taiwan. Explicitando, como sempre vemos no cinema, que os problemas do mundo são de responsabilidade geralmente dos orientais, russos, muçulmanos, ou todos os que não são estadunidenses ou europeus.


Mas voltemos à Paris, para onde a personagem principal vai quando está atingindo o nível máximo do uso da sua capacidade cerebral. Neste ponto, Lucy possui o entendimento geral do universo e escolhe um professor universitário a quem vai confiar todo este conhecimento acumulado. Temos aí o reforço do espaço acadêmico como sendo o do conhecimento válido. Entretanto a simbólica cena, na qual a cabeça do professor Robert de Sorbon (um dos homens que foi o percussor daquilo que viria a ser uma das primeiras universidades francesas) explode, é emblemática. Seria uma contradição? Mais uma vez o filme parece afirmar que o que se pensou até aquele momento como conhecimento científico é errado, no entanto o modelo de universidade é mantido. Sendo assim, se altera pouco as relações sociais, já que o poder institucionaizado do saber permanece nas mãos de poucos, mesmo diante da revolução de conhecimento que aconteceu em Lucy.


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É interessante perceber que por mais que os discursos apresentados no filme caminhem para a tentativa de uma ratificação dos padrões, o mesmo em alguns momentos apresenta quebras destes próprios discursos. Revolucionário? Não, apenas contraditório!


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Por fim, queremos deixar registrado que este é um dos filmes que assistimos no últimos tempos, que mais nos instigaram ao debate  e reflexão. Repleto de elementos que  nos deixou (enquanto telespectadores) presos e atentos, tentando analisar os discursos, procurando por erros e acertos do roteirista sobre pontos como as (in)questionáveis leis da física e da química que são postas em dúvidas. O alto nível da discussão sobre o tempo ser a única maneira de provar nossa existência aqui no mundo é altamente filosófico.

O telespectador é também um expectador e o cenário cinematográfico dos grandes circuitos tem lançado ultimante obras que exigem muita paciência para se manter sentado na cadeira até o final de algum filme, pela absoluta ausência de elementos instigadores (e por que não dizer inteligentes?) encontrados no filme “Lucy”. Mas o telespector sabe que por mais inteligentes que sejam os roteiros, efeitos e qualidade técnica, é sempre bom estarmos atentos para os  discursos padrões que eles tentam inculcar em nossas mentes.


Por Ddijane e Denilton


E você, o que achou de Lucy? Concorda ou discorda com tudo que a gente disse? Se meta, se jogue. Comente.