domingo, 16 de novembro de 2014

Lucy: Um discurso padrão



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Nasce hoje nossa primeira coluna, “Oxe! Cê Viu?” ela irá abordar temas referentes ao padrão e normatização nos meios audiovisuais.


Ficamos nos perguntando se já não era tarde demais para falar sobre Lucy, afinal não tem mais graça que o filme estreou. Também nos perguntamos se ia pegar mal ficar aqui fazendo propaganda do filme, chegamos a conclusão de que o ditado popular está certo quando afirma nunca ser tarde demais e acreditamos que vale o merchandising já que o filme é altamente instigador da reflexão.


Fizemos tantas viagens ao assistir ao filme e quanto mais ouvimos outras pessoas comentarem sobre ele percebemos que são viagens pouco exploradas. Taí a questão principal na decisão de conversar sobre ele.


Em linhas gerais, iremos fazer uma “viagem” pelo filme tentando analisar nos discursos construídos, em algumas cenas, o que consideramos perigoso por ocultar nas entrelinhas o objetivo de ratificar ou disseminar as normas e padrões existentes aí na sociedade.


Mas não sejamos chatos e nos deixemos devanear. Afinal cinema é entretenimento e lugar de fantasiar sobre o que poderia ser se assim fosse. Mas não sejamos ingênuos ao pensar que a industria cinematográfica não se aproveita das fantasias que tanto nos diverte para imprimir em nós suas ideologias.  Assim sendo, vamos às críticas:


LUCY COMO PADRÃO

Não podemos deixar de mencionar a atriz. Uma coisa unanime em todos os comentários que ouvimos foi o elogio a Scarlett Johansson: linda e talentosíssima! Bem, isso é inquestionável. Mas por que será que foi ela a escolhida para este papel de Lucy? Sabemos que os corpos tem papéis sociais definidos, divididos por territórios bem demarcados de acordo com várias características, inclusive fenotípicas.


Seria uma quebra de paradigma (enorme) se nas grandes salas de cinema assistíssemos a um filme onde uma mulher, no papel principal, é comparada a um deus, com capacidade cerebral insuperável por outro humano aparecesse num corpo não branco.




É muito sugestiva a cena do filme que nos faz lembrar o quadro de Michelangelo “Criação de Adão” no qual Deus fornece a Adão a centelha de vida. O encontro com a australopithecus Lucy, até agora considerado o mais antigo fóssil, de nossa “genealogia” - diga-se de passagem encontrado na Etiopia (continente africano) -, faz-nos pensar na evolução da espécie humana tendo a Lucy Ocidental (Scarlett Johansson) como o ser mais evoluído de todos, controlando várias coisas, como o tempo, as massas, os elementos químicos e físicos.
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Entendemos que a escolha da atriz loura, está dentro dos padrões historicamente estabelecidos como necessários à manutenção do pensamento do corpo branco, europeu como molde para os seres superiores. Então a cor da pele, olhos, cabelos e o fato de ela ser norte-americana é na verdade um reforço a permanência do mais do mesmo no cinema. Por que não uma mulher negra como Lucy? Será que este filme não deixa explicito o que pensam os “afrofóbicos”: ok! Surgimos na África, mas evoluímos tá?


DISCURSO DO “SER” MAIS IMPORTANTE

A discussão fundamental do filme é o lugar do ser humano enquanto criatura mais importante e poderosa no planeta Terra.


Abaixo transcrevemos as falas da personagem Lucy sobre este assunto:


Os seres humanos se acham únicos e sua própria existência depende desta unicidade. Um é uma unidade de medida, mas está errado. Todo o sistema social está construído em conceitos similares à certeza de que 1 + 1 = 2. Mas 1 + 1 nunca é igual a 2. De fato, não há números, ou letras. Codificamos nossa existência pra fazê-la do tamanho humano para torná-la compreensível. Criamos escalas para esquecer das escalas sem limites.


Com esta fala Lucy afirma que os seres humanos, que nem conhecem todos os mistérios do universo, supervalorizam sua importância existencial. Constroem formas/sistemas de responder às perguntas fundamentais: quem somos? Onde estamos? E para isso manipulam dados naturais de maneira que sua existência no universo ganhe um prestígio inegável.


Embora o filme traga na fala da personagem a reflexão sobre o papel do ser humano como figura supervalorizada, ao admitir como aceita a teoria de que usamos apenas 10% da nossa capacidade cerebral, o mesmo reafirma o inegável prestígio do que é ser humano. Afinal, somente o humano é apto a atingir um nível capaz de compreender todos os mistérios da vida e isso o coloca - sem questionamentos - como o ser mais importante do planeta.


A RAZÃO ESTÁ NA ACADEMIA?
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Acompanhamos os passos de Lucy para compreender exatamente os cénarios dos quais ela faz uso e tentamos traçar algumas análises para compreender qual discurso normatizador o roteiro lança.


A droga que provoca a alteração cerebral em Lucy é fabricada em Taiwan. Explicitando, como sempre vemos no cinema, que os problemas do mundo são de responsabilidade geralmente dos orientais, russos, muçulmanos, ou todos os que não são estadunidenses ou europeus.


Mas voltemos à Paris, para onde a personagem principal vai quando está atingindo o nível máximo do uso da sua capacidade cerebral. Neste ponto, Lucy possui o entendimento geral do universo e escolhe um professor universitário a quem vai confiar todo este conhecimento acumulado. Temos aí o reforço do espaço acadêmico como sendo o do conhecimento válido. Entretanto a simbólica cena, na qual a cabeça do professor Robert de Sorbon (um dos homens que foi o percussor daquilo que viria a ser uma das primeiras universidades francesas) explode, é emblemática. Seria uma contradição? Mais uma vez o filme parece afirmar que o que se pensou até aquele momento como conhecimento científico é errado, no entanto o modelo de universidade é mantido. Sendo assim, se altera pouco as relações sociais, já que o poder institucionaizado do saber permanece nas mãos de poucos, mesmo diante da revolução de conhecimento que aconteceu em Lucy.


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É interessante perceber que por mais que os discursos apresentados no filme caminhem para a tentativa de uma ratificação dos padrões, o mesmo em alguns momentos apresenta quebras destes próprios discursos. Revolucionário? Não, apenas contraditório!


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Por fim, queremos deixar registrado que este é um dos filmes que assistimos no últimos tempos, que mais nos instigaram ao debate  e reflexão. Repleto de elementos que  nos deixou (enquanto telespectadores) presos e atentos, tentando analisar os discursos, procurando por erros e acertos do roteirista sobre pontos como as (in)questionáveis leis da física e da química que são postas em dúvidas. O alto nível da discussão sobre o tempo ser a única maneira de provar nossa existência aqui no mundo é altamente filosófico.

O telespectador é também um expectador e o cenário cinematográfico dos grandes circuitos tem lançado ultimante obras que exigem muita paciência para se manter sentado na cadeira até o final de algum filme, pela absoluta ausência de elementos instigadores (e por que não dizer inteligentes?) encontrados no filme “Lucy”. Mas o telespector sabe que por mais inteligentes que sejam os roteiros, efeitos e qualidade técnica, é sempre bom estarmos atentos para os  discursos padrões que eles tentam inculcar em nossas mentes.


Por Ddijane e Denilton


E você, o que achou de Lucy? Concorda ou discorda com tudo que a gente disse? Se meta, se jogue. Comente.


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