domingo, 25 de janeiro de 2015

Her: você é completo?

 De cara nós podemos dizer que Her é um filme com discurso diferenciado, porque ele traz como personagem principal um homem, heterosexual, com características emocionais que históricamente nossa sociedade atribui às mulheres. Além deste personagem ter como atividade econômica ser escritor de cartas de amor, podemos citar duas cenas no filme que demonstram sua sensíbilidade efeminada para os nossos padrões. Na primeira cena ele utiliza um serviço telefônico que interliga pessoas com intenção de sexo, do outro lado a voz de uma mulher começa a excitá-lo e o clima esquenta até ela pedir para que ele a sufoque, parece que ela gosta de um sexo a lá 50 tons de cinza, todavia isso faz ele perder totalmente o prazer. Na segunda cena sexual do filme, em que ele parece ficar muito satisfeito com o resultado, as palavras que ele usa são doces, diríamos poeticas.

O filme, que se passa num futuro não especificado, mostra a rotina de um homem que separado de sua esposa se apaixona por um Sistema Operacional. O desenrolar do drama de Theodore faz o espectador refletir sobre os estereótipos de gênero, as relações sociais no mundo contemporâneo, o papel que a tecnologia tem desempenhado e pode vir a desempenhar na vida das pessoas, mas principalmente o filme trata do autoconhecimento.  
Quem nunca passou por uma crise existencial? Perguntas tais como: quem sou eu? O me faz feliz? O que faz minha vida ter sentido? Onde eu me enquadro na sociedade? Anda e vira estão passando pela nossa cabeça, geralmente provocadas por algum acontecimento que desequilibra nossas certezas, nossa rotina ou nossas emoções. É um desses momento que Theodore Twombly, personagem principal do filme Her está vivendo.

Como não podia deixar de ser num filme que se passa no futuro, a tecnologia está presente, mas neste caso ela aparece como coadjuvante, para fazer o espectador pensar no protagonismo dos seres humanos sobre suas prórpias vidas. Enquanto Theodore anda pela cidade a cena mais frequente é de pessoas andando sozinhas, gesticulando e conversando com seus aparelhos eletronicos. É muito provável que a maioria dessas pessoas estejam se comunicando com Sistemas Operacionais, mas ainda que haja um ser humano do outro lado é notório a alteração das relações entre as pessoas provocando afastamento entre elas, porém não a necessidade que eles tem uns dos outros, necessidade que vai sendo, de alguma forma, suprida pelas máquinas com inteligência emocional adaptada às necessidades individuais.
Se de modo geral o que aproxima as pessoas são as afinidades, como não se apaixonar por algo, que mesmo sem um corpo físico, é exatamente como você espera e deseja e ainda resolve parte dos seus problemas do dia-a-dia. É exatamente o que acontece com nosso artista, ainda não muito recuperado de uma separação, a qual terminou por cobranças relacionadas às incompatibilidades de personalidade, ele encontra em Samantha (seu Sistema Operacional inteligente) um complemento do seu próprio eu. Mas a confusão de Samantha na construção de sua personalidade faz Theodore ir se reconstruindo


Este filme é uma grande provocação. Faz-nos perguntar-mos a nível psicológico: o que somos? E a nível sociológico: no que estamos nos tronando. Os elementos são todos instigantes. Roupas retrógradas, Inversão nas relações entre os gêneros e a permanência pela eterna busca da felicidade fora de si mesmo. Este ultimo é o que o filme parece querer discutir mais profundamente. Nossa eterna necessidade do outro para ser completamente feliz e paralelamente a isso, nossa necessidade de moldar a personalidade do outro aos nossos interesses, dificultando a relação e, portanto a felicidade. 

Cê viu o que eu vi? Se bote ai!



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